Como a atividade cerebral impacta o TDAH.


Ana e Carlos se conheceram na escola e desde cedo perceberam afinidades que iam do gosto pela música aos passeios com seus cães. Tudo parecia mais que perfeito na vida dos jovens, que logo se apaixonaram e decidiram casar. Ana até se divertia com as distrações frequentes de Carlos, os esquecimentos, algumas atitudes impulsivas que quase sempre resultavam em algum desastre. Ela também admirava seu lado criativo, que logo se transformou em uma profissão de sucesso, com prêmios e viagens ao exterior.

Mas a rotina de Carlos era bem diferente do mundo todo organizado que ela fazia questão de manter, com cada coisa no seu lugar, tudo anotado na agenda e cumprido na hora certa, despesas compatíveis com o orçamento, cardápio da semana, roupas guardadas no armário. Enfim, uma vida a dois que parecia quase perfeita para quem via os dois sempre apaixonados e envolvidos com as mesmas causas e diversões.

Mas, dentro da casa deles uma verdadeira batalha de cérebros estava o tempo todo colocando à prova todo esse amor. Alguém sobreviveria? Todo dia Carlos saia atrasado porque tinha perdido a chave do carro, o carregador do celular, ou o tênis novo que tinha comprado para trabalhar. Por outro lado, Ana estava cansada de controlar as contas da casa, que acabou assumindo porque quando Carlos saia para pagar, perdia o boleto no caminho do banco. Como uma pessoa cujo cérebro funciona como um relógio suíço pode entender a outra com diferenças cerebrais que determinam comportamentos impulsivos e desatentos?

O que acontece no cérebro de uma pessoa que tem TDAH

Que mundo perfeito esse onde cada coisa deve estar no seu lugar! E que mundo estranho esse onde as coisas se perdem num vácuo de esquecimentos e distrações! São exatamente essas diferenças entre o cérebro normal e o cérebro dos portadores de TDAH que acabaram de ser comprovadas por uma pesquisa científica, publicada em fevereiro de 2017, pelo The Lancet. As novas descobertas podem ajudar, e muito, a entender os comportamentos das crianças, jovens e adultos que sofrem com críticas e outras dificuldades de relacionamento, quando deveriam ser apoiados para vencer as diferenças cerebrais.

A pesquisa¹ comprova que o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade – TDAH, está associado ao atraso no desenvolvimento de cinco regiões do cérebro e, portanto, deve ser considerado um distúrbio do cérebro. Este foi o maior estudo baseado em imagens de crianças e adultos com e sem TDAH e seus resultados ajudam a melhorar a compreensão da doença, inclusive sobre sua evolução ao longo da vida, porque as maiores diferenças foram observadas em crianças.

Sempre comparando imagens de atividade cerebral de pessoas com e sem os sintomas de TDAH, a pesquisa revela que as diferenças foram mais significativas nos cérebros das crianças com TDAH e menos óbvias em adultos com o transtorno. Com os dados levantados, os pesquisadores sugerem que os atrasos no desenvolvimento de várias regiões do cérebro são característicos do TDAH e, portanto, o transtorno seria um distúrbio do cérebro.

Estudos anteriores já haviam comprovado a ligação entre o TDAH e o núcleo caudado e puttamen, mas agora os pesquisadores concluíram que outras áreas também estão associadas ao transtorno. Como a amígdala por exemplo, que regula a emoção, o accumbens, associado com a motivação e problemas emocionais, além do hipocampo, que pode agir através do seu envolvimento na motivação e emoção.

Entre as principais descobertas² destacam-se algumas revelações que podem ser relevantes para as atualizações do Manual de Diagnóstico e Estatística, o guia utilizado pelos Psiquiatras para identificar as condições do paciente:

• Os autores do estudo disseram que “as estruturas cerebrais menores em crianças com TDAH, mas não em adultos, se encaixam em uma teoria de ‘pico de volume retardado’ de que o TDAH está associado a uma ‘velocidade alterada de desenvolvimento cortical’. Ou seja, o seu desenvolvimento cerebral pode ser atrasado em comparação com as crianças que não têm TDAH, mas pode se recuperar à medida que crescem”.

• O regulador emocional do cérebro, a amígdala, teve a maior redução de volume nos portadores de TDAH, comprovação que foi particularmente importante para os pesquisadores devido à onipresença de problemas emocionais no transtorno. Os autores escreveram que “esses sintomas [emocionais] estão frequentemente presentes em pacientes com TDAH, mas essas características da doença ainda não eram incluídas nos critérios oficiais”.

Apesar de ter envolvido um grande número de pessoas de todas as idades o estudo ainda não pode determinar como o TDAH se desenvolve ao longo da vida. A próxima etapa da pesquisa deverá envolver estudos longitudinais, desde a infância até a idade adulta, com portadores de TDAH, para observar como as diferenças cerebrais se manifestam ao longo do tempo. O que, sem dúvida, significará um grande avanço na compreensão e novas possibilidades de tratamento aos portadores do transtorno.

Entender as diferenças ajuda a vencer os desafios

Enfim, Ana e Carlos agora entendem que apesar das suas inúmeras afinidades as diferenças cerebrais se manifestam no dia a dia, mas descobriram alguns recursos para vencer as dificuldades de Carlos, desde criança diagnosticado com TDAH. E, se pensarmos que elas também estão presentes na vida profissional, já sabemos que todo aprendizado em lidar com o transtorno pode trazer grandes benefícios na rotina diária.

Muitas vezes tudo é uma questão de novos aprendizados e de como lidar com os sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade. Para isso Carlos buscou ajuda de um “treinador de TDAH”, um profissional de saúde que ensinou alguns recursos³ bem interessantes:

•Programar o cérebro com rotinas diárias, que devem ser repetidas até que se estabeleçam como um novo hábito. Isso porque as pessoas com TDAH podem levar dez vezes mais tempo para aprender um hábito e um décimo de tempo para esquecer.

•Para melhorar a gestão do tempo, muitas vezes afetada pelos problemas de esquecimento, uma boa alternativa é ter uma lista de todas as coisas que precisa antes de sair de casa de manhã. Colocar esta lista em local bem visível e todas as noites organizar tudo antes de dormir.

Adotar como lema “tem um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar”, criando outra lista com os itens que precisam ser organizados na casa, como guardar sapatos, livros e outros objetos no lugar certo. Manter essa rotina de acabar com a desordem das coisas para facilitar que elas sejam encontradas e evitar a perda de tempo.

• As habilidades sociais também podem ser trabalhadas com um treinamento que programa o cérebro para reagir de acordo com as regras mais aceitáveis de convivência, especialmente no ambiente profissional. Por exemplo, adotar nova posturas para ser mais comedido durante reuniões em grupo: aguardar que duas ou três pessoas se manifestem em uma reunião antes de abrir a boca e falar com impulsividade; e ainda, não contribuir com um segundo comentário até que pelo menos outra pessoa tenha participado da discussão. Esse novo comportamento precisa ser repetido por um portador de TDAH por um período suficiente para reprogramar seu cérebro, como três meses ou dez reuniões, e deve ser continuamente relembrado porque o cérebro pode esquecer muito rápido.

Enfim, agora Ana e Carlos podem viver um relacionamento bem mais tranquilo, aproveitando as muitas características positivas de Carlos, como a imaginação e a criatividade. Ana também reconhece o grande esforço dele para vencer suas dificuldades cerebrais, principalmente aquele que se concentra em melhorar tudo que faz uma grande diferença na vida do casal.

1. https:/www.sciencedaily.com/releases/2017/02/170216105919.htm

2.http://www.jornalciencia.com/transtorno-de-deficit-de-atencao-esta-relacionado-a-atraso-no-desenvolvimento-do-cerebro/<

3. http:/www.additudemag.com/adhd/article/8922.html

Julho/2020 C-ANPROM/BR//1996