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Vovôs desatentos: os sintomas do TDAH no idoso.
13 de setembro de 2018


Os óculos estão pendurados no pescoço e o vovô está procurando pela casa toda, ou a chave está na porta e a vovó não encontra em nenhum lugar. Quem nunca viu essas cenas que até parecem divertidas, mas podem esconder problemas bem mais sérios? Afinal, se o cérebro não funciona tão bem com o passar do tempo, para os idosos com TDAH outras questões precisam ser avaliadas quando os esquecimentos e distrações se tornam constantes.

Para começar, os idosos de hoje nem sabiam que existia o TDAH quando eram crianças, porque ninguém falava nisso. Provavelmente passaram uma idade adulta enfrentando imensas dificuldades típicas do transtorno e agora se vêem diante de novos desafios, além daqueles típicos do envelhecer. O problema é que muitas vezes os sintomas do Déficit de Atenção na terceira idade, são confundidos com sinais de demência, porque o diagnóstico não aconteceu antes.

Apenas um diagnóstico correto, com acompanhamento de especialistas, pode enfim trazer as respostas e o tratamento adequado para melhorar a qualidade de vida dos portadores de TDAH na velhice. Mas nem tudo é tão simples assim, até porque novos estudos apresentam visões diferentes do que até hoje se acreditava ser um transtorno que se manifesta desde a infância, mesmo quando não diagnosticado nessa época.

Como o transtorno tem características genéticas, muitas vezes os pais e avós são diagnosticados depois que os filhos e netos receberam o mesmo diagnóstico.¹ Apesar de considerado um distúrbio que afeta principalmente crianças e adultos jovens, constatou-se que o TDAH pode durar por toda a vida, sendo que 30% a 70% das crianças com TDAH continuam com sintomas quando crescem. Inclusive pessoas nunca diagnosticadas na infância podem começar a desenvolver sintomas mais evidentes na idade adulta.²

Uma questão importante quando se fala em TDAH na velhice é saber se esse idoso foi uma criança hiperativa ou se os sintomas se manifestaram apenas tardiamente. Isso porque segundo o DSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Academia Americana de Psiquiatria, o TDAH nos adultos é a continuação do distúrbio manifestado ainda na infância. Mas novos estudos vêm questionando esse consenso. “Estamos diante de algo totalmente novo. Até pouco tempo atrás ninguém acreditaria que o TDAH poderia ter início após a adolescência”, diz o psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos autores da investigação brasileira.

Os especialistas também estão atentos à possibilidade de o distúrbio mimetizar indícios de outros problemas, como depressão e dependências químicas. Até porque pessoas deprimidas ou sob efeito de entorpecentes não raro ficam constantemente avoadas. Nessa linha de raciocínio, o que se acredita ser um TDAH tardio seria, na verdade, uma manifestação de outros reveses psiquiátricos.

Para não confundir um comportamento patológico com os sintomas do TDAH, é preciso um diagnóstico rigoroso. Afinal, quem convive com esse transtorno não pode ficar sem tratamento, não importa se ele começou na infância ou mais tarde.³

“Pacientes adultos não devem permanecer sem atendimento apenas porque o DSM-5 só reconhece o transtorno na infância”, frisam os psiquiatras Stephen Faraone e Joseph Biederman em editorial do respeitado Jama Psychiatry. Eles citam dois grandes estudos populacionais longitudinais do Brasil e do Reino Unido e propõem uma mudança paradigmática na compreensão do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Eles concluem, não apenas que o início do TDAH pode ocorrer na idade adulta, mas que o TDAH com início na infância e com início na idade adulta podem ser síndromes distintas.4

Estudos abordam comorbidades e consequências do TDAH no idoso

Para completar a complexidade das questões que envolvem o TDAH, outros estudos também avaliaram a questão das comorbidades com outras doenças psiquiátricas e o uso de drogas, álcool e nicotina. Um dos estudos apontou que o quadro do TDAH pode persistir na vida adulta, embora passe a apresentar características diferentes das relatadas na infância.

Com o objetivo de “Verificar a possibilidade de rastreio do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em idosos”, o estudo utilizou critérios baseados nos aspectos nucleares do transtorno que seriam cognitivos e emocionais: ativação e organização no trabalho, sustentação da atenção, manutenção da energia e do esforço, labilidade do humor, hipersensibilidade à crítica e dificuldades de memória.

Os autores citam que o quadro de TDAH costuma amplificar-se devido às altas taxas de comorbidades com outras doenças psiquiátricas associadas, considerando que 77% dos adultos com TDAH apresentam outro transtorno psiquiátrico concomitante. Dentre as comorbidades mais freqüentes estão a depressão maior, transtornos de ansiedade, transtorno de humor bipolar, transtorno de personalidade, alterações de conduta e transtorno do abuso de substâncias.

Vários estudos têm demonstrado uma alta taxa de comorbidade entre TDAH e abuso ou dependência de drogas na idade adulta variando de 9 a 40%. A pesquisa demonstrou ainda que existe a possibilidade de rastreio do TDAH em idosos a partir da investigação dos seus descendentes e do seu próprio histórico de consumo de álcool e tabagismo.5

Um tema que requer novas pesquisas

No estudo “TDAH em adultos: fator de risco para demência ou mímica fenotípica?”, os autores ressaltam que o TDAH em adultos compartilha muitas características sobrepostas com o comprometimento cognitivo leve, incluindo déficits cognitivos, particularmente na memória e no funcionamento executivo e comorbidades psiquiátricas, como ansiedade, depressão e distúrbios do sono.

Esse fato levou à especulação de que o TDAH pode ser uma forma incipiente de demência, através de mecanismos patológicos compartilhados ou de um mediador não relacionado.

Embora exista um pequeno número de achados intrigantes que sustentam uma conexão fisiopatológica entre TDAH e demência, a maior parte das evidências sugere que o TDAH é um processo de desenvolvimento neurológico fundamentalmente não relacionado ao Comprometimento Cognitivo Leve (CCL), e que qualquer vínculo mecanicista entre os distúrbios é atribuível a mediadores comprometedores da saúde comuns na população com TDAH.

Os pesquisadores apontam ainda que os critérios para diagnosticar transtornos neurocognitivos em adultos com TDAH precisarão ser validados ou revisados para se basearem mais nos resultados funcionais. Alternativamente, pesquisas futuras devem explorar o desenvolvimento de novas ferramentas de avaliação para capturar com mais precisão as mudanças cognitivas que podem refletir uma condição neurodegenerativa nesses indivíduos.

Com esse e outros questionamentos a recomendação final da pesquisa sugere que a comunidade médica deveria considerar a formulação de critérios para os atuais sintomas de TDAH específicos para adultos e idosos. Com o crescente reconhecimento de que os sintomas de TDAH persistem na idade adulta e na velhice, considerando ainda que a crescente população geriátrica incluirá indivíduos com TDAH, outros autores pediram abordagens apropriadas para o diagnóstico de TDAH tardio.

Os pesquisadores concluem que apenas novos estudos podem efetivamente determinar se o TDAH está associado ao aumento do risco de declínio cognitivo. Somente a pesquisa continuada nesta área indicará a necessidade e a formulação de critérios diagnósticos para comprometimento cognitivo leve e demência adaptados para idosos com TDAH, bem como para TDAH em adultos e idosos.6

 

Referências:
1. GAZETA-DO-POVO. Não consegue se concentrar? TDAH também atinge adultos e idosos . Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/saude-e-bem-estar/mais-idade/nao-consegue-se-concentrar-tdah-tambem-atinge-adultos-e-idosos/>. Acesso em: 04 Ago. 2018.
2. LINKEDIN. Is it Dementia or Adult ADHD?. Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/dementia-adult-adhd-evan-h-farr/>  Acesso em: 04 Ago. 2018.
3. SAUDE-ABRIL. Inquietos tardios: TDAH não tem idade para começar. Disponível em: <https://sau-de.abril.com.br/mente-saudavel/tdah-nao-tem-idade-para-comecar/>  Acesso em: 04 Ago. 2018.
4. JAMA-NETWORK. Can Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Onset Occur in Adulthood?. Disponível em: <https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/article-abstract/2522743?re-sultClick=1>. Acesso em: 04 Ago. 2018.
5. ARQUIVOS-CATARINENSES-DE-MEDICINA. Avaliação do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)em idosos: estudo caso-controle. Disponível em: <http://www.acm.org.br/revista/pdf/artigos/788.pdf>  Acesso em: 04 Ago. 2018.
6. NATIONAL-CENTER-FOR-BIOTECHNOLOGY-INFORMATION. Adult ADHD: Risk Factor for Dementia or Phenotypic Mimic?. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5540971/>  Acesso em: 04 Ago. 2018.

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