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TDAH e o Isolamento Social Durante a Pandemia
13 de maio de 2020


Pessoas em quarentena no mundo todo temem por sua vida futura e tentam manter a saúde e o equilíbrio no isolamento social em tempos de coronavírus. O que se mostra tão difícil para todos é ainda mais desafiador para os portadores de TDAH que precisam superar as dificuldades típicas do transtorno e ao mesmo tempo lidar com as novas regras que chegaram com a pandemia.

São muitos os novos hábitos que devem ser incorporados rapidamente e que impactam pessoas com TDAH junto com o vírus Covid-19. Ficar em casa, lavar as mãos, ter mais cuidado com a higiene, cozinhar, fazer as tarefas domésticas, lidar com as crianças e adolescentes, se for um adulto, controlar a hiperatividade fechado em metros quadrados, estudar, trabalhar em homeoffice… A lista parece infinita, como parecem ser os dias na nova realidade.

Há muito mais a considerar além dos afazeres diários e de toda a rotina que muda nesse contexto de isolamento social para os portadores de TDAH. Como ficam as emoções? Estamos todos apreensivos, alguns com uma sensação de medo da doença e do futuro, outros ansiosos com a falta de contato social.

Os portadores de TDAH já sentem algumas dessas dificuldades de forma permanente, como a ansiedade, que agora pode estar ainda mais evidente. Outra dificuldade típica do TDAH, a falta de concentração, interfere fortemente para aqueles que precisam trabalhar ou estudar em casa e agora compartilham o mesmo ambiente com seus familiares.

A preocupação excessiva também pode se tornar um sério problema de saúde para os portadores de TDAH. Pesquisas1 sugerem que quase 40% das pessoas com TDAH também apresentam como comorbidade o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), cujas manifestações físicas e emocionais podem incluir:

  • Perda de sono devido à preocupação;
  • Falta de concentração, principalmente quando você tenta trabalhar em casa;
  • Alterações no apetite e / ou sintomas irritáveis do intestino; e
  • Uso de drogas ou álcool como mecanismo de enfrentamento.

Para algumas pessoas a ansiedade se manifesta como Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), um distúrbio grave de ansiedade caracterizado por pensamentos intrusivos e comportamentos repetitivos que, se não forem controlados, podem restringir severamente a capacidade de funcionar e manter uma qualidade de vida saudável.

A psicóloga clínica Laurie Perlis, Psy.D. especialista em avaliação e tratamento de TOC, TAG e fobias específicas em conjunto com o psiquiatra William Dodson, especialista em TDAH, oferecem algumas dicas que ajudam a lidar com esses tempos difíceis e com a ansiedade relacionada ao TDAH:2

1. Entenda os níveis adequados de estresse e ansiedade em resposta a uma ameaça percebida versus o comportamento indicativo de um distúrbio. A ansiedade é o sistema de alerta precoce do cérebro, que nos instrui a focar nossos pensamentos e ações na ameaça percebida e a tomar medidas para nos protegermos;

2. Crie uma rotina e cumpra-a. Estudar e trabalhar em casa é novo e desconfortável para muitos. A chave para aliviar a ansiedade é estruturar cuidadosamente seu dia. Encontre uma maneira de tornar seu espaço em casa pacífico e sua rotina regular, definindo horários para todas as atividades;

3. Faça exercícios todos os dias para proteger sua saúde mental. A atividade física libera proteínas que melhoram a função cerebral. Também promove um sono mais reparador. Exercício não é apenas bom para o seu corpo, ele alivia também a ansiedade e a depressão;

4. Conheça seus pensamentos irracionais com lógica. É verdade que o risco de contaminação é real e esse vírus é extremamente contagioso, mas existem medidas de proteção significativas. Você pode tomar medidas importantes para diminuir o risco de expor a si mesmo, sua família e populações vulneráveis - idosos, fumantes e pessoas com condições de saúde subjacentes.

5. Confie na orientação de fontes confiáveis. Se você estiver seguindo as diretrizes de ficar em casa, mantendo uma distância segura de outras pessoas e evitando tocar no rosto, especialmente nariz e boca, estará fazendo o que precisa para proteger você mesmo. Fique aliviado com isso!;

6. Conheça os números. Mesmo se a pior coisa acontecer e você ficar doente lembre-se de que aproximadamente 98% das pessoas se recuperam e aparentemente têm imunidade contra o vírus depois disso;

7. Mantenha a ameaça do vírus em perspectiva. Praticar distanciamento e isolamento social não é grande coisa diante de situações mais alarmantes. Pense nos nossos bisavós. Eles partiram para lutar uma guerra que engoliu o mundo inteiro. Você está sendo convidado a ficar em casa por algumas semanas e você pode lidar com isso;

8. Sinta-se bem em ser um bom cidadão. Lembre-se das razões pelas quais nos colocamos em quarentena. Não é para nos proteger; é para proteger aqueles em maior risco. Este é um momento para avançar, deixar de ser tão absorvido e começar a cuidar um do outro. Precisamos começar a nos comportar como se estivéssemos nisso juntos, porque estamos;

9. Se você tiver TOC, passe por ele. As pessoas com TOC sabem que seu medo é irracional, mas ainda as machuca e prejudica. Aceite que haverá grandes partes do seu dia ocupadas por rituais e obsessões. Tente flutuar nesses períodos difíceis, em vez de combatê-los. Tranquilize-se com o conhecimento de que as coisas vão melhorar;

10. Pessoas com TOC preexistente e outros transtornos de ansiedade provavelmente se sentirão piores durante a crise mundial. Sem ter para onde ir este é um ótimo momento para praticar técnicas de TCC, que são extremamente eficazes. Para pessoas com TOC, terapeutas e psicólogos são melhores que os médicos;

Além desse fator emocional que afeta indistintamente todas as pessoas, no caso específico do coronavírus as pessoas com TDAH precisam estar muito mais atentas aos hábitos de higiene recomendados para evitar a contaminação. O que provavelmente exigirá um esforço adicional considerando fatores como: distração, o sintoma número um dos adultos com o problema; esquecimento; excesso de pensamentos e ideias que impedem a pessoa de desacelerar e manter-se lavando as mãos por tempo adequado; e desmotivação. Todas essas dificuldades podem representar barreiras importantes na prevenção do COVID-19 para os portadores de TDAH.

O psiquiatra Marco Antonio Abud Torquato Junior, do IPq da FMUSP (Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e a psicóloga Nataly Martinelli, especialista em transtornos de ansiedade, apontam algumas atitudes que podem ajudar a amenizar esses problemas:3

  • Estabeleça um prazo curto e definido para executar as mudanças. Pessoas com TDAH se sentem mais motivadas a adotar hábitos se existe um limite de tempo definido. Esse prazo pode ser reavaliado depois;
  • Coloque avisos “Lave as Mãos”, junto com uma mensagem motivacional, em vários ambientes da casa;
  • Tenha sempre um álcool gel ou lenços umedecidos antissépticos à mão. Vale a pena colocar em vários locais da casa, pois a pessoa com TDAH pode se sentir desmotivada ou esquecer a higiene se eles estiverem muito distantes ou for muito trabalhoso;
  • Recompense-se com um autoelogio sincero cada vez que conseguir lembrar da higiene;

Por fim, e não menos importante, vamos lembrar que o isolamento físico não significa isolar-se das suas conexões. O distanciamento social nos forçou a mudar a forma como nos conectamos com a família e os amigos, educadores e terapeutas, essenciais no apoio às famílias afetadas pelo TDAH.

A nova realidade imposta pela crise de saúde COVID-19 mudou a forma como todos buscam apoio e conexão com outras pessoas e os portadores de TDAH não devem permitir que o distanciamento físico os mantenha longe de suas redes de suporte social.4 O uso de aplicativos e plataformas de conversas por vídeo tornou-se intenso e são um recurso mais que necessário para os portadores de TDAH que devem se manter conectados para obter todo o apoio que necessitam mais do que todos os outros grupos durante a pandemia.

Referências:
1. KESSLER, Ronald C. et al. The Prevalence and Correlates of Adult ADHD in the United States: Results From the National Comorbidity Survey Replication. The American Journal Of Psychiatry, Washington, v. 163, n. 4, p. 716-723, abr. 2006. Disponível em: https://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/ajp.2006.163.4.716. Acesso em: 13 abr. 2020.
2. ADHD EDITORIAL BOARD. Pandemic Anxiety: 10 Expert Coping Strategies. Disponível em: https://www.additudemag.com/adhd-coronavirus-anxiety-coping-strategies/. Acesso em: 13 abr. 2020.
3. SANTOS, Roseane. Quarentena e Saúde Mental: Depressão, TDAH e Outros Quadros Pedem Cuidados. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/04/02/quarentena-e-saude-mental-depressao-tdah-e-outros-quadros-pedem-cuidados.htm. Acesso em: 13 abr. 2020.
4. CHADD. Staying In Touch With Video Chat. Disponível em: https://chadd.org/adhd-weekly/staying-in-touch-with-video-chat/. Acesso em: 13 abr. 2020.

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