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TDAH e memória. Por que sou tão esquecido?
13 de agosto de 2018


Ricardo saiu para pagar uma conta, entre outros três ou quatro compromissos da manhã. Quando voltou para casa e sua mulher pediu o comprovante, “Ooooopss”, ele realmente tinha ido ao banco, mas foi conversar com o gerente e esqueceu o boleto junto com outros documentos na mesa. Sem pagar, claro. Resultado: ela foi buscar os papéis e pagar a conta.

Como cansa conviver com um portador de TDAH. Fatos aparentemente irrelevantes como este acontecem quase todos os dias. Ricardo esquece praticamente tudo, desde buscar as crianças na escola até compromissos importantes como consultas médicas e reuniões de trabalho.

Se você se identifica com situações como esta e se pergunta sempre “por quê sou esquecido?” e, além disso, ainda vive perdendo as chaves da casa e a carteira, entre tantas outras situações constrangedoras que se repetem, saiba que esquecimento e TDAH são praticamente parceiros. Vamos entender porque as falhas de memória acontecem e o que é possível fazer para vencer essa dificuldade.

Para começar precisamos entender que o processo de formação de memórias depende muito do bom funcionamento da atenção, da consolidação das memórias e da recuperação, ou seja, o ato de lembrar. Isso explica porque tantas pessoas com problemas de atenção acabam sofrendo com memória ruim.

A formação de memórias duradouras acontece em duas etapas:¹

  • A primeira depende da ativação da memória operacional, a memória de curto prazo, que é volátil e transitória. A memória de curto prazo depende diretamente da concentração - fechar o foco da atenção sobre o estímulo, aquilo que será posteriormente lembrado.
  • A segunda etapa envolve a passagem da memória de curto prazo para memórias de longo prazo e é menos dependente da atenção. Fica claro que se a pessoa não consegue prestar atenção ao que está acontecendo, dificilmente isto se consolidará em uma nova memória, como não houve atenção a memória sequer chegou a ser formada. Consequentemente não há o que lembrar. Isso porque lembrar significa conseguir recuperar uma memória consolidada.

A consolidação de longo prazo depende de três fatores:

  1. Suficiente atenção concentrada e escopo de memória de curto prazo, como foi mencionado acima.
  2. Boa consolidação destas memórias: a consolidação depende de fatores orgânicos, cerebrais e também de estratégias comportamentais. Para isso é indispensável a participação do hipocampo. Há diversos processos fisiológicos que acontecem durante o sono e consistem em ativação e fortalecimento de redes neurais, a base estrutural das lembranças.
  3. Estratégias de recuperação: além dos fatores orgânicos e cerebrais a consolidação também depende de estratégias comportamentais, como a quantidade de repetições. Por exemplo: ao estudar, as revisões sistemáticas dos conteúdos têm o papel de fortalecer cada vez mais as conexões neurais. Sem revisões, as conexões até começam a se formar, porém desaparecem porque são ainda muito frágeis. A recuperação das memórias (conseguir lembrar) é a fase final e também a de maior interesse. Afinal, ela sintetiza o que chamamos de capacidade de lembrar. A recuperação somente é possível se houver memórias bem consolidadas - ou seja, se a captação e consolidação foram suficientes. Ela é mais fácil, mais fluente, tanto mais se conhece sobre um assunto. Isto porque as redes neurais que se formam na etapa de consolidação são altamente interligadas, o que facilita muito a recuperação.

Manejo e resgate da memória operacional

A memória das pessoas com TDAH é considerada disfuncional para as tarefas cotidianas, porque elas são inábeis no manejo e resgate da memória operacional. Isso significa que elas perdem o timing dos seus compromissos, por falhas na organização temporal das ações que permitem dar a resposta no momento certo. Eventualmente elas até recordam o que precisam fazer, mas antes ou depois do tempo certo.

Como são situações que se repetem, os esquecimentos acabam por se tornar um grande problema, não apenas para os portadores de TDAH como para todos os que convivem com eles.²

Como lidar com as falhas na memória prospectiva? “Tenha uma agenda”, dizem todos, mas o portador de TDAH responde que ele sempre esquece de consultar. Neste caso, os lembretes podem ajudar muito, principalmente aqueles já disponíveis em agendas como a do Google, com alertas auditivos ou em aplicativos especialmente desenvolvidos para o TDAH como o FOCUS.

São muitas as opções de apoio oferecidas pelas novas tecnologias, mas as listas de tarefas e os lembretes visuais, aqueles que ficam pendurados num mural bem na sua frente também são úteis.

Importante mesmo é se organizar para ajudar a memória prospectiva, para que você possa manter uma vida mais funcional e bem menos atrapalhada.

Como o TDAH afeta a memória?

O TDAH afeta principalmente a memória de trabalho, um tipo específico de memória de curto prazo, onde a informação é armazenada de forma breve e disponibilizada para a computação ou manipulação.

Os investigadores que estudaram TDAH e memória de trabalho descobriram que a memória de trabalho fraca ou disfuncional é uma das principais causas de muitos dos problemas de função executiva dos portadores desse distúrbio.

A função executiva é como um gerente da mente e inclui a capacidade de organizar, planejar, solucionar problemas, auto-regular as emoções e resistir às distrações. Quando a função executiva é saudável o resultado é uma memória de trabalho forte.³

Por outro lado, a atenção seletiva é outro ponto fraco dos portadores de TDAH que pode afetar a memória. A atenção seletiva é a capacidade de se concentrar exclusivamente apenas em uma parte do estímulo, como tarefas, pensamentos ou sons.

Os pesquisadores usam o termo “The Cocktail Party Phenomenon” para ilustrar como a atenção seletiva deveria funcionar. Quando envolvidas em uma conversa em uma sala cheia de ruídos, a maioria das pessoas é capaz de se concentrar na conversa em que elas estão envolvidas. Mas os portadores de TDAH acabam se envolvendo com as outras conversas ou sons do ambiente.

De fato o que acontece com algumas pessoas com TDAH é que elas não só podem ouvir a conversa do seu interlocutor, mas todas as conversas, todos os sons de garfos, músicas, gelo em copos etc. Embora a falta de atenção seletiva não afete diretamente a memória, ser bombardeado por estímulos irrelevantes certamente vai influenciar se algo importante é lembrado ou não.

Dicas para melhorar a sua memória

Se você já percebeu que tem problemas importantes com a memória ou concentração e desconfia que pode ter um problema mais sério, procure um especialista. Lembre que dificilmente se consegue superar sozinho os problemas de um transtorno. Apenas os profissionais de saúde podem diagnosticar se eles estão relacionados ao TDAH e indicar os tratamentos mais adequados a cada caso.

Mas talvez você já tenha um diagnóstico e se acomodou com suas falhas de memória, jogando toda a culpa no transtorno, sem assumir que pode desenvolver algumas estratégias para melhorar e muito a sua vida e a de todos os que convivem com você. Pelo menos temos a boa notícia de que o cérebro é extremamente sensível e responde muito bem aos treinamentos e mudanças de estilo de vida.

O primeiro passo é pensar na nutrição cerebral com a indicação médica de suplementos e vitaminas que podem complementar a mudança na alimentação. Isso porque para o cérebro render melhor, ele precisa de combustível da melhor qualidade, além de outros recursos que já mostraram bons resultados, como:

  • Exercícios para formação da Memória de Trabalho: exercícios de melhora cognitiva destinados a fortalecer a memória de trabalho, projetados para desenvolver a atenção sustentada e a concentração durante a utilização da memória de trabalho de curto prazo.
  • Exercícios físicos: uma das chaves para um cérebro saudável é a atividade física regular, com benefícios tanto para crianças como para adultos com TDAH.
  • Treinamentos mentais para alta performance: a memória operacional, capa-cidade de concentração e velocidade mental respondem muito bem a treina-mentos como o Brain Fitness, o Brain Entrainment (estimulação cerebral) e a Meditação de Atenção Plena.

Enfim, agora que você já sabe de onde vêm todos os seus esquecimentos, pelo menos lembre de buscar ajuda, seguir as recomendações e tratamentos porque você pode ter uma vida muito melhor, com boas lembranças sempre.

 

Referências:
1. INSTITUTO-PAULISTA-DE-DEFICIT-DE-ATENÇÃO. Esquecimentos e falta de memória. Dispo-nível em: <https://dda-deficitdeatencao.com.br/tdah/esquecimentos-problemas-memoria.html >. Acesso em: 13 Jul. 2018.
2. TDAH-ORG. TDAH e memória prospectiva. Disponível em: <http://tdah.org.br/tdah-e-memoria--prospectiva/>  Acesso em: 13 Jul. 2018.
3. IMPROVE-MEMORY-SKILLS. ADHD and Memory. Disponível em: <http://www.improve-memory--skills.com/adhd-and-memory.html/>  Acesso em: 13 Jul. 2018.

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