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O que fazer quando o TDAH está associado a outros distúrbios psiquiátricos?
15 de outubro de 2017


A hora de buscar a filha na escola passou a ser quase uma tortura para os pais de Bia. Todo dia a professora estava esperando para conversar porque seu comportamento era inaceitável. Ela mordia outras crianças, brigava muito e o enfrentamento com todos era constante. Disciplina durante as aulas e nos intervalos, tarefas, filas e todas as rotinas da escola eram sempre contestadas. Em casa ela já demonstrava algumas dificuldades, mas como filha única acabava sendo atendida para evitar confrontos maiores, que acabaram se revelando um problema quando a socialização na escola se tornou necessária. Eles não sabiam mais o que fazer quando a pedagoga sugeriu que procurassem um especialista. A consulta foi longa e eles enfim saíram com um diagnóstico inesperado: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) associado ao Transtorno Opositivo Desafiador (TOD). Novas siglas que eles desconheciam e passaram a estudar para apoiar a filha no tratamento. Enfim, agora todos poderiam lidar com ela com mais habilidade, o que nem de longe significaria uma solução fácil ou imediata.

O TDAH pode estar associado a algumas comorbidades psiquiátricas e elas impactam tanto o diagnóstico como a evolução e os resultados dos tratamentos. Por isso, é importante conhecer, buscar um diagnóstico confiável e ter disciplina com os tratamentos recomendados. De acordo com estudos recentes sobre o transtorno, cerca de 75% dos adultos com TDAH apresentam mais de uma comorbidade. Entre as mais comuns encontram-se a depressão, ansiedade, compulsão alimentar, distúrbios do sono, drogadição, alcoolismo e dislexia. Nos adultos com TDAH, o comprometimento, nas múltiplas esferas da vida, acaba resultando em baixa autoestima crônica e frequentes casos de depressão e ansiedade.¹

Comorbidade significa a presença ou associação de duas ou mais doenças no mesmo indivíduo e para os portadores de TDAH é bem comum a associação a outras doenças e distúrbios psiquiátricos, em todas as faixas de idade dos pacientes. Nas crianças observam-se, além da ansiedade, os transtornos de conduta e dificuldades do aprendizado. Já os adolescentes apresentam uma tendência maior ao abuso de drogas, que, segundo estudos, ocorre com uma frequência muito maior em comparação aos indivíduos sadios.² Quando o TDAH é acompanhado de outros transtornos o diagnóstico se complica, a evolução piora e pode ocorrer menor resposta ao tratamento.

Vejamos porque.

A manifestação de diferentes transtornos dificulta a identificação dos sintomas e é bem mais complicado saber quais se referem a um ou outro transtorno para detectar o principal. Essa dificuldade torna ainda mais importante procurar um especialista que possa fazer os exames clínicos mais completos, que resultem em um diagnóstico mais preciso e nos tratamentos corretos.

A comorbidade também torna a evolução dos transtornos bem mais complicada, devido ao conjunto de sintomas associados que acentuam os problemas característicos do TDAH. Como cada transtorno requer tratamentos diferentes, essa abordagem mais complexa torna ainda mais difícil alcançar melhoras. A resposta ao tratamento do TDAH também fica reduzida com a presença das comorbidades. Isso porque, para enfrentar diversos sintomas e patologias associados, são necessários tratamentos específicos e, se os transtornos associados não são tratados adequadamente, a resposta ao tratamento do TDAH pode ser diminuída. Para esclarecer um pouco mais esse quadro, é importante destacar alguns fatores associados ao aumento de comorbidades com o TDAH. Entre eles encontram-se o diagnóstico tardio, o baixo quociente intelectual (QI), o baixo nível educativo e cultural, o TDAH combinado e a presença de antecedentes familiares com TDAH, transtorno bipolar e depressão. A associação de transtornos também pode ser o resultado do TDAH não diagnosticado a tempo e portanto não tratado. Até por isso é importante saber que a detecção precoce do TDAH reduz o risco de desenvolver outros transtornos psiquiátricos.³

Como identificar as principais comorbidades do TDAH

Entre as comorbidadesque costumam estar associadas ao TDAH encontramos os distúrbios da linguagem:

  • Dislexia, dificuldade com a leitura ou escrita;
  • Disgrafia, dificuldade com a escrita; e
  • Disfasia, dificuldade com a fala.

Já o Transtorno Bipolar pode resultar em confusão de diagnóstico. Isso porque tanto o TDAH quanto o transtorno maníaco-depressivo podem causar alterações de humor fazendo com que o paciente passe da excitação extrema à depressão. Para completar, quando a bipolaridade se associa ao TDAH os sintomas maníaco-depressivos são mais fortes.

Outros transtornos que podem se manifestar associados ao TDAH são:

  • Transtorno Alimentar;
  • Transtorno de Conduta (TC);
  • Transtorno de Personalidade Antissocial;
  • Transtorno de Sono; e
  • Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

Inclusive, é importante destacar a pesquisa sobre “Comorbidades do TDAH em crianças escolares”, cuja conclusão ressalta que o TDAH apresenta alta freqüência de comorbidade com Transtorno de Conduta (TC), que parece estar preferencialmente associado ao TDAH combinado.

O Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) é o mais comum entre os casos relatados em consultórios e atinge aproximadamente 1/3 das pessoas com TDAH, segundo pesquisas que avaliam os transtornos associados. O TOD caracteriza-se como um transtorno de conduta onde a criança demonstra “comportamento provocador, desobediente ou perturbador e não acompanhado de comportamentos delituosos ou de condutas agressivas ou dissociais graves”, conforme a Classificação Internacional de Doenças ( CID 10 – F.91.3).6

Comorbidades requerem diagnósticos aprofundados e tratamentos combinados

Os casos de TDAH com comorbidade precisam de um diagnóstico diferencial de excelência. Toda suspeita deve ser confirmada por especialistas, que poderão avaliar quais são os transtornos associados e orientar os tratamentos mais adequados a cada caso. Esse processo costuma ser mais demorado por exigir a utilização de instrumentos específicos de psicodiagnóstico, que permitem avaliar a presença e intensidade dos transtornos envolvidos. Entender o valor de todos esses passos, do diagnóstico preciso aos tratamentos combinados, é essencial para obter um plano de trabalho com os pacientes que contemple as necessidades de cada um. Tanto as comorbidades podem esconder os sintomas do TDAH, como a não identificação dos transtornos associados é um dos principais fatores que influenciam os resultados insatisfatórios dos tratamentos e até mesmo a falta de resultados.

A comorbidade requer um plano de tratamento que se aplica a cada paciente de acordo com o impacto dos transtornos em sua vida, considerando o curto e o longo prazos. Acredita-se que a melhor combinação de tratamentos é aquela que potencialmente possa levar a uma sinergia de resultados positivos. Algumas combinações de tratamentos podem produzir resultados agregados, onde os ganhos individuais se combinam e se potencializam. Desta forma produz-se um círculo virtuoso, onde o impacto de um ganho potencializa outro, criando uma espiral positiva. O contrário também acontece, quando a comorbidade não é diagnosticada e as fragilidades dos transtornos associados acabam criando um círculo vicioso que se retroalimenta, de forma que um déficit torna o outro ainda mais intenso. O que pode resultar em graves conseqüências na vida do paciente, conforme o tipo de transtorno associado ao TDAH.

Para o paciente deve ser esclarecido que o plano de tratamento tem uma fase intermediária, onde nem todas as suas queixas mais importantes serão atendidas de imediato. Isto porque outros sintomas da comorbidade podem ser priorizados para influenciar positivamente o todo.Enfim, são muitas as conseqüências dos transtornos psiquiátricos associados ao TDAH, mas todas com tratamentos possíveis, desde que o paciente procure os profissionais certos, obtenha um diagnóstico preciso e colabore para alcançar os melhores resultados.

 

Referências:
1. ASSOCIAÇÃO-BRASILEIRA-DO-DÉFICIT-DE-ATENÇÃO. TDAH no adulto, estudos recentes. Disponível em: <http://www.tdah.org.br/br/artigos/textos/item/1144-tdah-no-adulto-%E2%80%-93-estudos-recentes.html>. Acesso em: 30 Ago. 2017.
2. DRAUZIO-VARELLA. Déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Disponível em: < https://drauziovarella.com.br/crianca-2/deficit-de-atencao-e-hiperatividade-tdah>. Acesso em: 30 Ago.2017.
3. TDAH-Y-TU. TDAH y comorbilidad. Disponível em: < http://www.tdahytu.es/tdah-y-comorbili-dad/>. Acesso em: 30 Ago. 2017.
4. SOCIEDADE-BRASILEIRA-DE-INTELIGÊNCIA-EMOCIONAL. Entenda a relação de comorbi-dades de TDAH. Disponível em: < http://www.sbie.com.br/blog/entenda-relacao-de-comorbi-dades-de-tdah/>. Acesso em: 30 Ago. 2017.
5. AGUIAR POSSA, Marianne;  SPANEMBERG, Lucas; GUARDIOLA, Ana. Comorbidades do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em crianças escolares. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/anp/v63n2b/a21v632b.pdf>. Acesso em: 30 Ago. 2017
6. NEUROSABER. Crianças com TDAH podem ter outros transtornos associados?. Disponível em: <https://neurosaber.com.br/artigos/criancas-com-tdah-podem-ter-outros-transtornos-asso-ciados/>. Acesso em: 30 Ago. 2017.
7. INSTITUTO-PAULISTA-DE-DEFICIT-DE-ATENÇÃO. Comorbidade e TDAH - Mais de um proble-ma ao mesmo tempo. Disponível em: < https://dda-deficitdeatencao.com.br/tdah/comorbida-des.html>  Acesso em: 30 Ago. 2017

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