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Como o Transtorno Sensorial Infantil Afeta Crianças Com TDAH
15 de agosto de 2019


Como o transtorno sensorial infantil afeta crianças com TDAH

Eduardo senta para estudar e a cadeira parece ter um bicho carpinteiro. Ele não para quieto um instante, até que levanta, pega um copo de água, não toma, brinca com o cachorro e atormenta o irmão mais novo. Volta, olha para o teto, viaja até o seu mundo da lua particular e a lição fica sem fazer. A cena se repete todos os dias com algumas variações de intensidade dos movimentos e distrações. Na escola não é diferente e as coisas se complicam porque ele não consegue organizar os materiais, se perde no caminho entre uma sala e outra e fica muito irritado com os ruídos excessivos dos intervalos.

Sim, ele tem TDAH. Mas a mãe desconfia que não é só isso e retorna ao psiquiatra pedindo novas avaliações. Ela já sabe que existem comorbidades associadas ao transtorno, mas até então desconhecia a relação entre TDAH e Integração Sensorial na Infância. Tanto a experiência clínica, quanto estudos, já constataram que crianças com TDAH podem apresentar alterações gerais no processamento sensorial, principalmente em relação à modulação sensorial.¹

A Teoria de Integração Sensorial foi desenvolvida pela terapeuta ocupacional e neurocientista Dr. A. Jean Ayres que estudou a relação entre as sensações corporais, os mecanismos cerebrais e a aprendizagem. A integração sensorial é definida como “...um processo neurobiológico que organiza a sensação a partir do próprio corpo e do ambiente e torna possível usar o corpo efetivamente dentro do ambiente.” ²

A abordagem da Teoria de Integração Sensorial tem como foco a discussão sobre o modo como o cérebro processa as sensações, produzindo respostas motoras, comportamentais, emocionais e atencionais. É uma teoria que estuda as relações cérebro-comportamento e as relações cérebro-aprendizagem.

O transtorno sensorial infantil,  seus sintomas e manifestações

Quando uma criança apresenta sinais do transtorno às experiências sensoriais comuns, como ver, sentir e fazer, são processadas de maneira atípica. E isso pode significar muitas coisas, talvez o cérebro responda tardiamente, como pode não responder de maneira alguma, ou talvez responda incorretamente.

No final das contas, a resposta à informação sensorial não ocorre como deveria, o que  leva à uma série de problemas relacionados à integração sensorial infantil. Por isso o diagnóstico é essencial para definir o tratamento mais adequado a cada situação, especialmente quando se trata de um quadro em que se constata o TDAH e integração sensorial na infância.

O Transtorno de Processamento Sensorial das crianças pode ser avaliado por meio de questionários, testes normatizados das habilidades do processamento sensorial e observações clínicas. Um conjunto de técnicas que permite detectar o tipo predominante de transtorno, que se divide em três categorias³:

1- Transtornos de modulação sensorial são caracterizados pela dificuldade em regular grau, intensidade e natureza das respostas aos estímulos sensoriais, podendo ser classificados em:

  • Hiporresponsividade sensorial, com pobre reação aos estímulos relevantes do ambiente, como dor, movimentos ou cheiros; por exemplo, a criança que cai e se machuca sem perceber e reclamar de dor. Essa criança é chamada de “avoider”, porque ela se esforça para evitar a estimulação sensorial - cobrindo as orelhas, escondendo-se sob a mesa ou fechando os olhos. Sua entrada sensorial é muito sensível e tudo parece demais para ela.
  • Hiperresponsividade sensorial, apresenta maior tendência a se orientar e a responder a determinados estímulos, como toques, movimentos, luzes, sons, apresentando, por exemplo, respostas aversivas ou intolerância ao movimento, com reação de enjôo, mal-estar e náuseas diante de mínimos estímulos. Esta criança não vai perceber o que está acontecendo ao seu redor, mesmo que sejam estímulos mais barulhentos e coloridos ou uma temperatura extrema. Sua entrada sensorial é silenciada, então, ela frequentemente parece indiferente ou retraída. Na realidade, ela simplesmente não percebe o que está acontecendo com seus sentidos. 
  • Busca sensorial com procura constante de estímulos intensos, seja vestibular, proprioceptivo e outros. Esta criança é conhecida como o “buscador”, ou as vezes, o “pára-choques e crasher”. Esta criança quer sensações, muitas. Ela vai ser um demolidor, subindo para o galho mais alto ou balançando o mais longe no balanço. Sua contribuição sensorial nunca é suficiente e ela sempre quer mais, mais e mais.

2. Transtornos de discriminação sensorial estão relacionados às dificuldades em interpretar a qualidade ou a singularidade de cada estímulo, perceber suas diferenças e semelhanças, podendo apresentar diferentes graus de dificuldades nas diversas modalidades sensoriais, como visual, tátil, auditivo, vestibular, proprioceptivo, gustativo e olfativo.

3. Transtornos motores com base sensorial são caracterizados por indivíduos com dificuldades em integrar as informações do próprio corpo e movimentar-se de maneira eficiente no ambiente, sendo os problemas mais comuns:

  • Distúrbio postural, com dificuldade em estabilizar o corpo durante o movimento ou retificar a postura quando solicitado pelo movimento;
  • Dispraxia, com dificuldade em idealizar, criar, iniciar, planejar, sequenciar, modificar e executar as ações.

É importante destacar que essas categorias não são mutuamente exclusivas. Uma criança com Transtorno de Processamento Sensorial pode apresentar sintomas de mais de uma categoria e subtipo, o que pode confundir a busca de um diagnóstico mais preciso.

Como os pais podem ajudar seus filhos com déficit sensorial infantil

A família pode, e deve, ajudar as crianças em todas às suas dificuldades, especialmente quando o transtorno do TDAH se apresenta associado a outros, como o Processamento Sensorial. Neste caso o tratamento considerado mais eficaz é a Terapia Ocupacional, usando técnicas de integração sensorial. Quanto mais cedo o tratamento acontece, melhor é o resultado. Isso porque o cérebro de crianças pequenas é mais maleável e responde bem à intervenção precoce eficaz.⁴

As técnicas de Terapia Ocupacional variam muito, dependendo das dificuldades específicas de cada criança, mas o objetivo é sempre o mesmo: fazer com que as conexões funcionem mais suavemente. O terapeuta tentará envolver a criança em atividades que a interessem, enquanto aborda suas dificuldades sensoriais.

O que mais os pais podem fazer para ajudar uma criança a superar suas dificuldades com integração sensorial:

  • Sempre que possível fazer seus filhos brincarem vigorosamente com diversão sem limites. Brincar ao ar livre, sem regras e restrições desnecessárias, é fundamental para desenvolver e melhorar o processamento sensorial da criança. A pioneira da Integração Sensorial, Dr. A. Jean Ayres, disse certa vez: “Diversão é a palavra da criança para a integração sensorial.” Se o seu filho está empenhado em usar seus sentidos, ele está fortalecendo suas respostas sensoriais e seu cérebro.
  • Usar o poder do toque. O tipo certo de toque pode ser muito reconfortante para uma criança, especialmente quando ela está chateada. Se a criança está tendo um colapso, você pode envolvê-la em um forte abraço, ou deixá-la deitada enquanto pressiona suavemente suas costas e pernas.

Algumas dicas de especialistas também ajudam muito a melhorar o rendimento escolar⁵:

  • Incentivar saltos em cama elástica. Saltos estimulam o corpo e cérebro e permitem que os cinco sistemas sensoriais (proprioceptivo, vestibular, tátil, visual e auditivo se conectem uns com os outros. Quando muitas sensações trabalham juntas, o cérebro fica disponível para o aprendizado. Além disso, saltar é bom e divertido.
  • Encurtar o caminho para a classe. Mover-se de forma rápida e eficiente de uma classe para outra é um desafio para muitas crianças com TDAH e TPS. Corredores ruidosos sobrecarregam o sistema auditivo e o corpo se desliga para se proteger. Uma alternativa que pode ser combinada com professores é sair da aula mais cedo, para chegar na próxima aula antes que os corredores fiquem lotados.
  • Goma de mascar ajuda crianças à manterem-se concentradas. A boca tem uma alta concentração de terminações nervosas sensoriais, e a goma de mascar envolve seis de seus oito sistemas sensoriais – os sentidos táteis, proprioceptivos, gustativos, olfativos, auditivos e interoceptivos. A interocepção nos mantém conscientes do que está acontecendo dentro de nossos corpos. À medida que os músculos e articulações da boca e da mandíbula funcionam, a goma de mascar também ativa o sistema proprioceptivo, melhora as habilidades de fala e mantém a criança acordada.

Lembre que uma criança diagnosticada simultaneamente com TDAH e Transtorno de Processamento Sensorial enfrenta imensas dificuldades ao longo do dia. Crianças com ambas as condições podem se sentir fora de sincronia com o mundo a maior parte do tempo, o que torna difícil organizar percepções do que está acontecendo ao seu redor e, portanto, o que elas devem fazer em resposta. Esse duplo golpe exige coragem por parte dos portadores e um esforço permanente dos pais para apoiar cada manifestação com amor e cuidados que ajudem a criança a entrar em sincronia.

 

 

 

Referências:
¹ NCBI. Responses-Of-Preschool-Children-With-And-Without-Adhd-To-Sensory-Events-In-Daily-Life. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15202627>
² SIGN. Disponível em: <https://www.siglobalnetwork.org/ayres-sensory-integration>
³ PEPSIC. Processamento-Sensorial-Na-Criança-Com-TDAH-:-Uma-Revisão-Da-Literatura. Disponível em:<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862012000200009>
⁴ ADDITUDE-Inside-The-ADHD-Mind. How-Sensory-Processing-Disorder-Looks-a-Lot-Like-ADHD. Disponível em: <https://www.additudemag.com/slideshows/signs-of-sensory-processing-disorder/>
⁵ ADDITUDE-Inside-The-ADHD-Mind. Stimulate-The-Senses-:-5-Tips-To-Help-Kids-With-ADHD-&-SPD-Succeed-At-School. Disponível em: <https://www.additudemag.com/adhd-and-sensory-processing-disorder-at-school/>

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